A Meditação na Vida Cristã 4/4

Os chamados “padres do deserto”, como João Cassiano (370-485) e o autor da obra “A nuvem do não saber” (anônimo, provavelmente no século XIV) apenas reforçaram o caráter sobrenatural do contato entre Deus e o homem, que vai além do nosso entendimento, algo, aliás, que o apóstolo Paulo registra num instante de grande espiritualidade ao término do capítulo 11 da epístola aos romanos. Isto não autoriza, em absoluto, defendermos que a meditação é prática que deve nos fazer inconscientes ou de “mente vazia”. Fujamos destes ensinos, que nada tem de bíblicos e nada mais são que aplicação dos falsos ensinamentos da Nova Era a uma prática das mais sublimes e profundas da espiritualidade cristã.
“…O vazio de que Deus precisa é o da renúncia ao próprio egoísmo, não necessariamente o da renúncia às coisas criadas que Ele nos deu e no meio das quais nos colocou. Não há dúvida que na oração nos devemos concentrar inteiramente em Deus e afastar o mais possível aquelas coisas deste mundo que nos prendem ao nosso egoísmo.…” (SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. op.cit., n.19). A contemplação de Deus exige de cada um de nós a prévia limpeza de coração (Mt.5:8), o que, aliás, também é uma exigência feita ao orante (Jo.9:31). Por isso, em vez de nos desprendermos, devemos, na meditação, começar refletindo sobre nossos pecados e pedindo perdão por eles a Deus. É o chamado primeiro estágio da meditação, a “purificação”.
OBS: Tomás de Kempis (1379 ou 1380-1471), em sua obra A imitação de Cristo, que teve grande influência entre os líderes da Reforma Protestante, afirmava o seguinte: “…Por que muitos santos foram tão perfeitos e contemplativos? É que eles procuraram mortificar-se inteiramente em todos os desejos terrenos, e assim puderam, no íntimo de seu coração, unir-se a Deus e atender livremente a si mesmos. Nós, porém, nos ocupamos demasiadamente das próprias paixões e cuidados com excesso das coisas transitórias. Raro é vencermos sequer um vício perfeitamente; não nos inflamamos no desejo de progredir cada dia; daí a frieza e tibieza em que ficamos. Se estivéssemos perfeitamente mortos a nós mesmos e interiormente desimpedidos, poderíamos criar gosto pelas coisas divinas e algo experimentar das doçuras da celeste contemplação. O que principalmente e mais nos impede é o não estarmos ainda livres das nossas paixões e concupiscências, nem nos esforçamos por trilhar o caminho perfeito dos santos. Basta pequeno contratempo para desalentarmos completamente e voltarmos a procurar consolações humanas. Se nos esforçássemos por ficar firmes no combate, como soldados valentes, por certo veríamos descer sobre nós o socorro de Deus. Pois ele está sempre pronto a auxiliar os combatentes confiados em sua graça: Aquele que nos proporciona ocasiões de peleja para que logremos a vitória. Se fizermos consistir nosso aproveitamento espiritual tão somente nas observâncias exteriores, nossa devoção será de curta duração. Metamos, pois, o machado à raiz, para que, livre das paixões, goze paz nossa alma. Se cada ano extirpássemos um só vício em breve seríamos perfeitos. Mas agora, pelo contrário, muitas vezes experimentamos que éramos melhores, e nossa vida mais pura, no princípio da nossa conversão que depois de muitos anos de profissão. O nosso fervor e aproveitamento deveriam crescer, cada dia; mas, agora, considera-se grande coisa poder alguém conservar parte do primitivo fervor. Se no princípio fizéramos algum esforço, tudo poderíamos, em seguida, fazer com facilidade e gosto. Custoso é deixar nossos costumes; mais custoso, porém, contrariar a própria vontade. Mas, se não vences obstáculos pequenos e leves, como triunfarás dos maiores? Resiste no princípio à tua inclinação e rompe com o mau costume, para que te não metas pouco a pouco em maiores dificuldades. Oh! Se bem considerasses quanta paz gozarias e quanto prazer darias aos outros, se vivesses bem, de certo cuidarias mais do teu adiantamento espiritual. …” (A imitação de Cristo, I, 11. Disponível em: http://www.culturabrasil.org/imitacao.htm Acesso em 23 out. 2010). E há ainda hoje quem ache que os maus costumes não inibem o avanço espiritual dos crentes…
Também aqui devemos tomar cuidado com a obsessão que estes “arautos da meditação” estão a fazer com relação à postura física para a meditação, algo que é essencial na “meditação esotérica”, já que deve haver um “desprendimento do corpo”, sua “aniquilação” e a postura física traz, inegavelmente, uma influência na criação deste estado psicológico de desprendimento. Assim como não há uma postura física que se impõe à oração, não pode haver, também, posturas físicas impostas para a meditação.
Não se nega que a meditação exige uma certa postura física, um ambiente em que não haja distração, mas a obsessão que se tem com relação a este aspecto é mais um indicador da influência alheia à Palavra de Deus que possuem tais técnicas de meditação. Ademais, como bem ponderou o já mencionado documento romanista, “…Viver no âmbito da oração toda a realidade do próprio corpo como símbolo, é ainda mais difícil: pode degenerar em culto do corpo e levar a identificar subrepticiamente todas as suas sensações com experiências espirituais. Alguns exercícios físicos produzem automaticamente sensações de repouso e de distensão, que são sentimentos gratificantes; podem talvez até produzir fenômenos de luz e de calor, que se assemelham a um bem-estar espiritual. Trocá-los, porém, por autênticas consolações do Espírito Santo, seria um modo totalmente errôneo de conceber o caminho espiritual. Atribuir-lhes significados simbólicos típicos da experiência mística, quando o comportamento moral do praticante não está à sua altura, representaria uma espécie de esquizofrenia mental, o que pode conduzir até a perturbações psíquicas e, em certos casos, a aberrações morais.…( SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. op.cit., nn.27 e 28).
OBS: Elucidativas são as palavras do monge beneditino D. Estevão Bittencourt (1919-2008) a respeito: “…Os hinduístas, especialmente os budistas, é que cultivam exercícios corporais para praticar a meditação. Nisto são inspirados por sua mentalidade panteísta, que identifica entre si a Divindade e o homem; este seria uma centelha da Divindade apoucada ou encarcerada pela matéria. Os exercícios físicos ttêm a função de fazer que a centelha divina (existente no íntimo do homem) se emancipe das limitações da matéria e entre em sintonia com a divindade existente fora do homem; as posturas físicas, o ritmo respiratório, a dieta alimentícia desempenham assim papel Importante, porque, segundo esta concepção, contribuem para libertar o núcleo central do homem.(…) Nos últimos anos alguns autores católicos têm procurado adaptar a metodologia hinduísta à prática cristã da oração, recomendando exercícios físicos diversos para se conseguir chegar à mais profunda união com Deus.(…) É possível, sim, que os exercícios corporais proporcionem certo bem-estar físico, facilitando a respiração e o metabolismo; todavia esse bem-estar ou essas condições higiênicas não é oração, nem são necessariamente a melhor preparação ou o melhor o concomitante da oração .(…) Quem muito valoriza os exercícios corporais para rezar, corre o risco de identificar oração e bem-estar higiêniCO, ou também o risco de identificar gestos corpóreos e valores éticos espirituais(…) (O mantra na espiritualidade cristã. Pergunte e responderemos, n. 408, ano 1996, p.209. Disponível em: http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:WzfR5pSNdFwJ:www.cleofas.com.br/virtual/texto.php%3Fdoc%3DESTEVAO%26id%3Ddeb0115+medita%C3%A7%C3%A3o,+felipe+de+aquino,+estev%C3%A2o+bettencourt&cd=6&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br Acesso em 21 out. 2010)
Depois de termos sido lavados e purificados no sangue de Cristo (I Jo.1:7), temos condição de prosseguir na meditação, fazendo lembrança de Suas obras (Sl.63:6), refletindo e meditando
Por fim, temos o terceiro estágio da meditação, conhecido como “união”, uma experiência particular que depende da vontade de Deus. Esta união é um “mistério”, algo que é de impossível descrição, em que desfrutamos de um compartilhamento todo especial com Deus, de uma intimidade, de uma manifestação da Sua glória. Por isso mesmo, como bem afirma o documento católico romano a que nos referimos já algumas vezes, não é possível criar-se uma “técnica” para se chegar à “união mística”, pois isto independe do homem, mas única e exclusivamente de Deus. “…A mística cristã autêntica não tem nada a ver com a técnica: é sempre um dom de Deus, do qual se sente indigno quem dele se beneficia…” (SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. op.cit., n.23).
Esta experiência, ademais, é particular, relacionada com a intimidade entre aquele que medita e o Senhor, algo que não poderá ser, por isso, pretendido nem copiado por outra pessoa. Tem-se aqui uma manifestação espiritual peculiar, que jamais poderá se tornar em uma doutrina, aplicável a todos os servos de Deus. Devemos nunca nos esquecer disto, para que não busquemos o que não nos é oferecido, como também não julguemos os outros pelo que tenhamos nós experimentado com o Senhor em nossa intimidade espiritual.
“… A meditação é um dever que precisamos praticar, se desejamos o nosso próprio bem-estar espiritual. A meditação deveria ser deliberada, intensa e contínua (ver Sl.1:2; 119:97). Os assuntos em torno dos quais a mente do crente mais deveria ocupar-se são as seguintes: as obras da criação (Sl.19); as perfeições de Deus (Dt.32:4); o ofício e as operações do Espírito Santo (Jo. 15 e 16); a dispensação da providência divina (Sl.97:1,2); os preceitos e promessas existentes na Palavra de Deus (Sl.119); o valor dos poderes da alma e sua imortalidade (Mc.8:36) e, finalmente, a depravação de nossa própria natureza, e a graça de Deus, em nossa salvação etc.” (CHAMPLIN, Russell Norman. Meditação. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. v.4, p.200) (destaques originais).
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